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Betim · MG
Que toquem os tambores!
Colunistas Raquel Tomanik · 3 min de leitura

Que toquem os tambores!

A arquiteta Raquel Tomanik analisa a relação entre arquitetura, memória e devoção popular, lembrando que preservar o patrimônio é vivenciá-lo no cotidiano de Betim.

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Há alguns anos, durante a Festa do Congado em Betim, enquanto assistia ao bater
dos tambores no interior da Capela de Nossa Senhora do Rosário, alguém me
perguntou: “Todo esse barulho deve afetar a construção, não é mesmo?”. Minha
resposta: “Sim! Certamente afeta!”. Percebi o olhar surpreso, porque quem me
indagou sabia que sou arquiteta e que, na época, trabalhava com patrimônio
cultural. Era esperado um complemento à minha afirmação, talvez algum
comentário censurando o “barulho”. O que falei em seguida, presumo, pode ter
assustado ainda mais: “A Capela foi construída para esse propósito”, e expliquei
que, anualmente, são feitos reparos nas alvenarias para que a edificação continue a
ser usada para missas e celebrações do Congado.

A situação acima ilustra a problemática ideia de que a preservação do patrimônio
cultural, especialmente o imobiliário, implica torná-lo intocável. A preocupação com
a conservação e possíveis descaracterizações é válida, e não se descartam
medidas de restrição ao uso em situações extremas. Entretanto, também é preciso
considerar o que levou um determinado imóvel a ser protegido.

Para José Luiz dos Santos 1 , a cultura é uma construção histórica, um produto da
vida humana que acontece em um território. Desse modo, quando algo é
considerado patrimônio cultural, significa que há, nesse objeto, crença ou saber,
referência à identidade e à memória de um povo. Falando de uma edificação, a
relevância pode ir além dos aspectos arquitetônicos e estar no uso que ela teve ao
longo do tempo. No caso específico da Capela, lembramos a motivação da
construção dos templos em louvor a Nossa Senhora do Rosário, erigidos por
negros, escravizados ou libertos, impedidos de frequentar os espaços destinados à
adoração pelos homens brancos no período colonial.

O tombamento é um instrumento técnico e legal que formaliza a intenção de
preservação de um imóvel; porém, é o uso que vai mantê-lo de pé. A frase
“preservar não é tombar, renovar não é pôr tudo abaixo”, do arquiteto Carlos Nelson
Ferreira dos Santos 2 , sintetiza essa discussão, mostrando que tornar uma edificação
intocável não garantirá sua preservação, e habilitá-la ao uso não significa
autorização para modificá-la à revelia. Nosso patrimônio expressa a construção de
nossa memória e vivê-lo é o que garantirá a manutenção e a transmissão de nossa
história, tradições e saberes entre gerações.

O som dos tambores nos lembra de que a memória está preservada. Que sigam
tocando!

1 SANTOS, José Luiz dos. O que é cultura . 6. ed. São Paulo: Brasiliense, 1987. (Coleção Primeiros
Passos, 110). 76 p.
2 SANTOS, Carlos Nelson F. Preservar não é tombar, renovar não é por tudo abaixo . Revista
Projeto, n. 86, São Paulo, 1986, p. 59-63.

BIO
Raquel Tomanik é arquiteta e urbanista, doutora em Arquitetura e Urbanismo
(UFMG), mestre em Engenharia Urbana (UFSCar) e especialista em Gestão e
Conservação do Patrimônio Cultural (IFMG). Após 20 anos atuando no
planejamento urbano em Betim, voltou-se ao patrimônio e às artes, formando-se em
Curadoria e Expografia pelo Cefart/FCS. Com vivências internacionais de estudo e
pesquisa em Londres, Amsterdã e Edimburgo, conecta urbanismo, memória e arte
com um olhar sensível sobre o espaço e a cultura.

Galeria · 1 foto

  • Raquel Tomanik

Publicado em 5 de novembro de 2026

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