Salve, família! Aqui quem escreve é a Iza. Compartilho um pouco da minha vivência com o hip-hop e as artes urbanas em Betim.
Quero começar homenageando LEOZ MC, parceiro que fortaleceu batalhas e eventos culturais enquanto construía sua carreira como rapper. Infelizmente, ele nos deixou, mas sabemos que, de onde estiver, sabe o quanto é amado por nós. Ficam a saudade e a gratidão por tudo que ajudou a construir. Que esteja em um bom lugar!
O hip-hop começa nos territórios, oferecendo caminhos para crianças e adolescentes diante das vulnerabilidades sociais. É também um grito de socorro, expressão e resistência.
Hip-hop não é só dança de rua ou batalha de rima: reúne MC, DJ, breaking, graffiti e conhecimento.
O contato direto com essas linguagens desde a infância faz muita diferença. Nas oficinas realizadas nas escolas, já percebemos diversas vezes o quanto essas experiências marcam a vida das crianças. É nesse primeiro contato que novos talentos podem ser descobertos e que uma criança encontra novas formas de se expressar.
O hip-hop também atravessa o modo de vestir, agir e se expressar. É nesse atravessamento que percebemos sua influência na maneira como meninas e meninos da quebrada se comunicam, se vestem e constroem suas identidades. Essa influência percorre os quatro cantos da cidade e chega até a região central, que ainda é um dos territórios mais difíceis de introduzir nessa vivência cultural.
Betim tem uma história de batalhas construída por muitas mãos. A Batalha do Bocão, com o próprio Bocão, movimentou o Horto Municipal. Vieram a do Santa Inês (BZ); a do Vila Cristina (Coité, Big, DG e o saudoso Leoz); a Batalha do Subaco, realizada no Parque Ecológico do São Caetano, por Ella Lopes e comunidade; a do Laranjeiras (Cião MC); a do Ibiruçu (Lord MC); a da Central, com uma grande equipe; a do Coxa (Brenin e equipe); a do Citro (Gafan); e a da Baixada, no PTB (PX, Philipim e parceiros). Hoje seguem a do JB (Theu Alves e Vitor) e a Clandestina (Nandim).
Essa história também passa pelo trabalho de Caio Vinícius, criador da Batalha do SJ e do movimento H2Street, além de colunista da página RapMalado, que possui alcance nacional. Sua atuação contribui para conectar Betim a outras movimentações do hip-hop.
Também destaco a Primeiro Mundo Coletivo, acompanhada por TH MC e sua companheira Glayci Pereira, ao lado de outros artistas incríveis que vêm transformando não apenas o bairro Bueno Franco, mas também outras quebradas e municípios. São iniciativas que mostram como a organização coletiva consegue ultrapassar fronteiras territoriais.
Todas essas batalhas têm algo muito forte em comum: aconteceram na raça, sem estrutura, ajuda de custo ou grandes recursos.
O breaking também já foi muito forte em Betim. Bboys e Bgirls representaram a cidade pelo país. Muitos caminhavam a pé até os treinos por falta de dinheiro para o transporte. Os lanches eram coletivos, as crews de breaking eram verdadeiras famílias e os encontros faziam parte da construção da juventude. Essa memória não pode se perder, assim como as dificuldades de deslocamento que ainda acompanham a cultura.
Nomes como Bboy Codorna, Fabrício, Marzanio, Tikim e Tchu fazem parte dessa história. Também precisamos reconhecer Kelly Christian, uma das mulheres que abriram caminhos para tantas outras na cidade, acompanhando o crescimento do breaking, participando de ações políticas e fomentando eventos.
Hoje, Nani, Bgirl que honra a velha escola, representa Betim em BH como jurada e competidora, conquistando troféus. É bonito ver essa continuidade. O documentário Ainda Dançamos, com o Bboy Rogê Brazzabomb, também registra parte dessa memória.
Na dança de rua, destaco Jarbas, da Crew CJD, um artista maravilhoso e professor de muitos dançarinos de Betim. A própria Crew CJD continua existindo, mostrando que algumas construções atravessam gerações e permanecem vivas mesmo diante das dificuldades. São trajetórias que merecem reconhecimento.
No graffiti, Betim tem artistas com trabalhos importantes. No Teresópolis, temos Eden Sabão, do Quarto Mundo, com quase 40 anos de trajetória artística. Seu trabalho vem transformando a vida de muitas crianças por meio de trabalhos comerciais, oficinas em parceria com a Árvore da Vida e outros projetos. Sabão é uma referência na formação artística dentro da comunidade. Também destaco Fubá, grafiteiro, e tantos outros artistas da cidade que representam e fortalecem essa cultura.
Alguns grafiteiros encontram na tatuagem uma forma de continuar vivendo da arte. Muitos artistas precisam de outras profissões para se manter, enquanto o preconceito contra a arte de rua persiste.
Também tem crescido na cidade a produção de pinturas a óleo e acrílica sobre tela, retratando vivências, territórios e a estética periférica. Destaco o trabalho da artista betinense Stefane Bernardo, que também é trancista e leva para suas obras referências da nossa realidade. Saúdo o trabalho da Ste Bernardo e a parabenizo por resistir, preservar e resgatar nossa essência.
Também quero saudar Meirinha Toledo, que, embora não trabalhe diretamente com o hip-hop, tem uma contribuição importante para as artes visuais em Betim. Foi uma das precursoras no incentivo à formação de artistas, criando possibilidades para que muitos grafiteiros aprendessem, desenvolvessem suas técnicas e buscassem profissionalização.
MADRA, rapper betinense, já representou a cidade no estadual de slam e desenvolve trabalhos independentes em BH. Temos também uma forte cultura de bancas: grupos de MCs que se unem para construir suas crews musicais.
Betim também tem mulheres que saem das periferias para conquistar seus espaços na música. Talita Silva, rapper e cantora, vem construindo sua trajetória no R&B e no soul, sem perder sua relação com a cultura de rua. MacJulia, que sai da comunidade do Alterosas para conquistar o mundo, também representa Betim. Ella Lopes, que realizou a Batalha do Subaco e fez muita resistência cultural na cidade, hoje mora no Rio de Janeiro, segue lançando músicas e trabalhando para consolidar sua carreira. Sua trajetória também é a de uma mãe que luta diariamente por sobrevivência e pelo direito de conquistar seu espaço. São mulheres que mostram a potência artística das nossas periferias.
Estou na cultura de rua há dez anos. Nesse caminho, construímos o CRIA, e ao meu lado esteve Ana Pantoja, que me ajudou a pensar toda a estrutura e caminhou comigo enquanto sua rotina permitiu.
No ProRaças, tive ao meu lado Julia Kristin e Guilherme Dias, além dos oficineiros que construíram o projeto até a pausa que fizemos no período pós-pandemia. Depois, o coletivo acabou se desarticulando. Hoje, trabalhamos uma fusão do Circuito de Rua com o Projeto Raças, por meio de oficinas e ações desenvolvidas durante o CRIA.
E fica uma reflexão: por que tantos coletivos culturais de Betim não conseguem durar? Será falta de incentivo, de condições para manutenção ou de sentido de pertencimento? É uma realidade que atravessa muitos grupos da cidade. Começamos, construímos, movimentamos territórios, mas muitas vezes não conseguimos garantir a continuidade dessas iniciativas.
A nova geração busca profissionalização, editais e autonomia. Isso é importante, mas precisamos lembrar que a geração anterior tinha ainda menos condições e, mesmo assim, trouxe o hip-hop para Betim. É fundamental fortalecer os coletivos independentes: essa cultura existia muito antes dos editais.
Acredito que a juventude quer se organizar, quer se sentir protagonista da própria história e também contribuir coletivamente. Betim tem potencial para isso e precisa reconhecer sua própria potência. Vira e mexe, a cidade abre os braços para protagonizar ações de outros municípios da Região Metropolitana de Belo Horizonte. Precisamos também reconhecer e valorizar o que nasce aqui dentro.
Betim precisa de espaços e de um equipamento público com estrutura e acesso democrático, como o CRJ de BH, que permita encontros, oficinas e diferentes manifestações culturais. Não podemos depender apenas de iniciativas pontuais.
Esses costumes, essas histórias e formas de fazer cultura não podem cair no esquecimento. Betim merece ocupar um lugar de protagonismo, reconhecendo seus artistas, suas periferias e as pessoas que construíram e continuam construindo essa história.
Não é sobre fama. Uma oficina, um treino, uma batalha ou um muro pintado podem mudar o caminho de uma criança. Betim já tem uma história de hip-hop. Precisamos reconhecer essa memória e garantir espaço para a nova geração.
Faço um apelo aos meus irmãos de rua: que não esqueçam jamais a nossa essência e não desanimem de lutar contra o apagamento que enfrentamos diariamente. Nossa história não começou ontem e não pode terminar agora. Continuemos ocupando, criando, ensinando e fortalecendo uns aos outros.
Aos artistas, coletivos, crews, bancas e parceiros que não foram citados nominalmente, deixo meu respeito e minhas desculpas por não conseguir contemplar todos neste espaço. São muitas mãos, muitas histórias e muitas pessoas que ajudaram a construir essa caminhada. Cada contribuição importa.
Agradeço à Betim Cultural pelo convite e pelo espaço.
Izadhora Cristina é produtora cultural, atriz em formação pelo palácio das artes, licenciada em história e idealizadora de iniciativas voltadas à valorização da cultura de rua.
Sua atuação é marcada pela articulação entre cultura, território, identidade, memória e transformação social, desenvolvendo projetos que aproximam artistas, educadores, comunidades e diferentes manifestações culturais. É idealizadora do CRIA Betim, projeto que promove experiências de formação e vivência cultural. Em 2027, o projeto chega à sua quarta edição, trazendo como temática a moda sustentável na periferia.
Também é idealizadora do PRORACAS, iniciativa que, em 2027, completa nove anos de trajetória. O projeto desenvolve oficinas de Hip Hop por meio de uma construção coletiva com oficineiros. Ao longo de sua trajetória, já passou por cidades como Juatuba, Contagem, Mateus Leme, Betim e outros municípios da Região Metropolitana de Belo Horizonte, promovendo acesso à formação artística e fortalecendo a cultura Hip Hop. Sua experiência também abrange a produção de espetáculos teatrais, projetos audiovisuais, encontros culturais, ações formativas, projetos por lei de incentivo e iniciativas de valorização da cultura popular e afro-brasileira.
Galeria · 1 foto
-
Izadhora Cristina



