A poesia sempre está nas pequenas coisas, nos detalhes, na percepção vinda do âmago das pessoas. Saindo de lá, ela se agiganta de tal maneira que controlá-la fica difícil. Para os olhos distraídos, as pequenas coisas e pequenos acontecimentos seriam apenas insignificâncias. Mas ali, podem estar escondidos segredos poéticos que nos trazem acalanto para a vida. É para isso que existe a poesia. Para acalentar almas.
Aconselho a leitura da obra de Manoel de Barros, excelência nessa arte das miudezas.
Apesar do corre-corre diário, do burburinho cotidiano, dos traços de metrópole cicatrizados em sua pele, vejo em Betim uma realidade poética. Não como um segredo que se vê pelas frestas das paredes, mas no esforço das pessoas em procurar o lado bom da cidade, o trabalho honesto, a culinária impecável, o jeito de tornar mais bonito o lugar onde moramos. Poesia é para ser despertada. Quando ando pelos cantos de Betim, meu olhar de poeta se despenca do alto de sete décadas direto na intimidade das pessoas. Na atendente que sai de trás de um balcão para ajudar a senhorinha a carregar o filho até o outro lado da rua; no homem que mesmo trabalhando incansavelmente consegue assobiar uma cantiga conhecida; no pastel de feira generoso em todos os sentidos; na mulher que religiosamente rega o arbusto defronte de sua casa e varre seu passeio como se estivesse dançando. Vejo poesia em tudo, mas, como Adélia Prado, tem dias que “olho pedra, vejo pedra mesmo”.
Tudo isso me faz amar a cidade em que nasci. Amo minha terra. Posso até destratá-la, criticá-la, às vezes. Afinal, é uma cidade como qualquer outra, inacabada. Sempre in progress. Cidades perfeitas não existem, nem nos Emirados Árabes Unidos, nem em filmes de ficção. Só em sonhos. Mas defendo ferrenhamente quando ouço alguém falar mal de Betim, esse pedaço de terra tão ambíguo que me viu nascer.
As memórias afetivas que insisto em guardar embrulhadas em seda, numa caixinha, me dão um orgulho enorme. Como por exemplo, o de morar até hoje na casa onde nasci. A vida, ou o destino, com sua ironia habitual, me deixou morar num lugar privilegiado da cidade, em frente a uma casa antiga onde morou minha família antes de eu nascer e que seria, hoje, a Casa da Cultura da cidade.
Aflora minha memória afetiva, num episódio mais recente, o fato de eu ter trabalhado durante anos, até a aposentadoria, num único lugar: a prefeitura de Betim. Ali, fiz amigos, acompanhei o crescimento e a transformação da cidade até os dias de hoje.
Porém, a memória afetiva que mais me cativou no presente, nos últimos dias, foi ver o movimento que fez alguns moradores voltarem sua atenção para as árvores da cidade. Fiquei muito entusiasmada com a iniciativa, ao ver o carinho dispensado ao concurso organizado pela página Betim Cultural. Muitos saíram às ruas com seus celulares ou câmeras fotográficas para registrar as árvores mais bonitas, as mais imponentes, as mais floridas, as mais curiosas, enfim. Houve até quem se arriscasse em meio aos carros só para registrar aquela árvore favorita. Quantas vezes passamos por um lugar e nem vemos as coisas belas que estão no caminho... O crescimento das cidades modifica o cenário de um dia para o outro. Praças aparecem sobre destroços de igrejas históricas, casas desaparecem cedendo lugar a Arranha-céus com alturas nunca antes atingidas nos ares betinenses. E assim, caminhamos rumo ao futuro que pode ser melhor se mudarmos nosso olhar para onde haja menos ódio e mais amor.
Por isso proponho um abraço entre a poesia e a memória afetiva, já que elas andam juntas. Formando um duo parecido com uma imagem saída de um sonho. Como um navio trafegando num oceano profundo, mas o comandante sabe exatamente onde lançar a âncora. E mesmo sabendo, por mais que o tempo siga seu caminho, tem coisas, como a poesia e a memória, que se recusam a passar. Nada me move mais que isso.
(EDINÉIA ALVES – novembro, 2026)
Edinéia Alves - Betinense, formou-se em jornalismo, relações públicas e publicidade, e fez pós-graduação em Comunicação, Gestão Empresarial e Marketing pelo IEC/PUC – MG.
É poeta e cronista. Publicou "Dos os Olhos ao Coração: Onde se Fia a Poesia" (crônicas) e"Beijo de Lua e outras Miscíveis Poesias". Por ocasião do primeiro aniversário da Casa da Cultura Josephina Bento, recebeu das mãos da professora a Comenda da Ordem do Mérito Artístico, oferecida pela Fundação Artístico Cultural de Betim (FUNARBE). Em 2005, recebeu nova condecoração da FUNARBE e da Academia Betinense de Letras (ABEL) pela contribuição à arte e à cultura de Betim. Foi responsável pelo livro de ouro e pelo Catálogo de Arte e Cidadania do Instituto Ramacrisna, patrocinado pela Petrobrás. Hoje, é Conselheira do Instituto. Funcionária pública aposentada, hoje se dedica prioritariamente à literatura, poemas e crônicas.
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Escritora betinense Edinéia Alves



