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Betim · MG
Genuinamente betinense: o pertencimento que mora na memória
Colunistas Luciana Rodrigues · 4 min de leitura

Genuinamente betinense: o pertencimento que mora na memória

Entre rótulos do passado e a pressa do progresso, a verdadeira identidade de Betim mora no cotidiano e nas histórias: inauguramos a editoria "Colunistas" refletindo sobre o pertencimento de ser genuinamente betinense."

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Quando a Betim Cultural nasceu, o objetivo era simples: dar espaço para a arte e as histórias que acontecem no dia a dia da cidade. Mas, na prática, estar à frente dessa página me trouxe um aprendizado muito mais bonito e pé no chão. A gente adora ver e se reconhecer na memória popular, do crescimento dos bairros, das histórias das pessoas que, em algum momento, nos marcaram.

Com mais de 400 mil habitantes, uma área vasta e um parque industrial gigantesco, Betim cresceu rápido e ganhou peso econômico. No entanto, o progresso acelerado talvez tenha nos cobrado um preço alto em autoestima. Por estar colada na capital, dentro da Região Metropolitana, a cidade muitas vezes carrega rótulos injustos, e os betinenses também. Quem nunca disse ou ouviu que somos uma “roça grande”? E belo-horizontinos dizer que Betim é "onde o vento faz a curva" ou que é longe demais? Mal sabem eles que desde sempre (hoje bem menos) betinense trabalha, estuda e “dá um pulo” em BH, como se fosse um bairro, logo ali. Pior do que os de fora, quantas vezes nós mesmos não reproduzimos algo que desqualifica a cidade, os eventos e o povo daqui? O rótulo de que a cidade é apenas uma "roça grande" ou uma "cidade-dormitório" acabou criando uma carência cultural.

Por muitos anos, faltou ao morador o hábito de olhar para o próprio quintal com orgulho. E se “roça grande” for algo muito legal? Eu acho sensacional estar perto de BH e também de Mateus Leme e Brumadinho, com toda a estrutura que temos.

O conceito do que é genuinamente betinense vem justamente para quebrar essa lógica. Ser um "betinense raiz" não depende de ter nascido aqui há quatro gerações, mas de criar laços com o chão que se pisa. O pertencimento surge quando a gente entende que a nossa história importa e que a cultura local não perde em nada para a de lugar nenhum. E eu não estou falando de shows e eventos. Patrimônio imaterial, no fundo, é isso: a cultura que não se prende a museus e centros culturais, mas vive no saber da benzedeira que morava na rua de uma tia, na receita do boteco daquele conhecido de escola, no passo do Congado que assistimos na Igrejinha do Rosário e nas histórias de calçadas e praças.

Eu vejo nos comentários de publicações da página, especialmente da coluna Memórias de Betim, que, uma foto antiga de um evento ou de alguém popular, a reação é imediata. As pessoas marcam as outras, “lembra fulana?”, "eu estudei aí do lado", contam histórias de infância e adolescência e celebram a memória que está na publicação. Não é só sobre curtir um post; é sobre a surpresa de se ver naquele recorte e “encontrar” por ali vários comentários que representam uma fase ou momento que vale a pena guardar. É aquele estalo de perceber: "Nossa, a minha história e o meu bairro fazem parte da cultura da cidade e da identidade local."

Essa troca diária mostra o quanto nossa população era carente de se enxergar nos espaços de memória. Quando resgatamos a antiga professora do ginásio, o grupo de folia de reis ou o artista de rua que pinta os muros da comunidade, a gente recupera um pedaço da nossa própria autenticidade...faz sentido? A cultura deixa de ser algo distante, de museu fechado e festival, e vira conversa de conhecidos por meio da identidade local.
Inauguro esta coluna com a certeza de que Betim tem cara, voz e identidade próprias. Não somos quintal de ninguém nem uma extensão da capital. Somos um território gigante, diverso e cheio de vida, moldado por gente que trabalha, cria e se reinventa. Resgatar a memória popular é o caminho mais direto para fazer cada morador ter orgulho de dizer que é, sim, genuinamente betinense.

*Na capa coloquei uma foto que fiz na Marco Túlio, altura do Imbiruçu, quando percebi a paz de um betinense debaixo da sombra de uma árvore, numa terça-feira, por volta de 10h da manhã. Abaixo foto minha mesmo, ao lado do Padre Luiz Fernando, fazendo catecismo (genuinamente betinense).

Luciana Rodrigues, betinense, filha do Seu Ademir, da Dona Ceci, neta do Seu Alvim, da Dona Anália e da Dona Etelvina, publicitária e produtora cultural.

Galeria · 1 foto

  • Acervo pessoal

Publicado em 20 de outubro de 2026 · atualizado em 29 de outubro de 2026

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